Me sentir amada
Nunca me senti amada — até agora.
Demorei para conseguir dizer isso sem peso. Sem dúvida. Sem aquela sensação de que estou exagerando ou inventando algo que não é real. Mas não… dessa vez é diferente. Tem presença. Tem corpo. Tem verdade.
A vida me trouxe até aqui para que eu finalmente pudesse enxergar algo que sempre esteve disponível, mas que eu não conseguia acessar: eu tenho amor. Eu sou amada.
Mas antes de conseguir ver isso fora, eu precisei fazer um caminho inevitável — reconhecer esse amor dentro de mim.
Eu precisei me permitir ser amada por mim mesma.
E isso não foi leve.
Porque, durante muito tempo, eu me neguei a sentir a dor. E, sem perceber, ao evitar a dor, eu também estava evitando o amor. Era como se, ao fechar uma porta, eu estivesse fechando todas — sem exceção.
A dor do abandono é profunda. Silenciosa. Antiga.
Ela vem de muito tempo atrás… de um tempo que, muitas vezes, nem conseguimos lembrar. Ou pior: de um tempo em que nem sabíamos que estávamos sendo abandonados, rejeitados, deixados de lado.
E o mais curioso — ou talvez o mais doloroso — é que essa dor não vem de vários lugares diferentes. Ela vem da mesma ferida, repetida ao longo da vida, em cenários diferentes, com rostos diferentes.
Primeiro dentro do seio familiar.
Depois na escola.
Entre amigos.
E mais tarde, nas primeiras relações amorosas — muitas vezes marcadas por dinâmicas que só reforçam aquilo que já estava lá: a sensação de não ser escolhida.
E assim, sem perceber, crescemos acreditando em uma narrativa silenciosa:
de que não somos suficientes.
de que não somos dignos.
de que não somos merecedores de amor.
E o mais perigoso é que a gente não percebe que começou a viver a partir dessa crença.
A gente se fecha.
Ou então faz o oposto: se entrega demais.
Dá, dá, dá… sem limite.
Na esperança — quase sempre inconsciente — de que alguém, finalmente, veja o nosso valor.
Na esperança de receber um pouco de volta. Nem que seja uma migalha.
E nisso, um vazio vai crescendo.
Um vazio difícil de explicar, mas impossível de ignorar.
E como dói esse vazio.
Mas chega um momento…
em que algo dentro da gente cansa de repetir o mesmo ciclo.
Um momento em que já existe maturidade suficiente para reconhecer os próprios padrões.
Um momento em que, pela primeira vez, a gente se torna disponível para olhar para essa dor com honestidade — sem fugir, sem se anestesiar, sem tentar racionalizar tudo.
E é aqui que tudo começa a mudar.
Porque quando eu finalmente me permito sentir — de verdade — e me deixo atravessar por essa dor… algo se abre.
Não é mágico. Não é imediato. Mas é real.
Surge uma oportunidade.
A oportunidade de olhar para aquela versão minha que chorou, que sentiu medo, que se sentiu completamente desprotegida… sem nem entender o que estava acontecendo.
Apenas medo.
Um medo profundo de perder o chão.
De ficar sem amparo.
De não ter onde se apoiar.
E, pela primeira vez, eu não fujo dela.
Eu fico.
Eu olho.
Eu acolho.
E, aos poucos, começo a oferecer a ela tudo aquilo que ela nunca recebeu da forma que precisava: amor, cuidado, proteção, presença.
E isso… isso muda tudo.
Porque é nesse encontro que algo quase desconcertante acontece:
eu começo a enxergar que o amor sempre esteve ali.
Sempre.
Mas eu estava ferida demais para perceber.
Me sentir amada não veio de fora.
Veio do momento em que eu parei de me abandonar.
Com amor e alma,
Juliana Rosi


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