Quando acordei e já não consegui voltar a dormir
Escrevo não a partir de quem sabe, mas de quem atravessa.
Atravessar tem sido difícil. Extremamente cansativo — não para o corpo, mas para a alma.
Houve um momento em que decidi abandonar a batalha, a busca incessante por respostas. Algo em mim percebeu que continuar a lutar só aprofundava o cansaço.
O que aprendi até agora com esse processo de revirar as minhas sombras é que, de alguma forma, eu estava a ser preparada para assumir o meu próprio centro. Para confiar em mim. Para escutar a minha sabedoria interna.
Tenho sentido que o despertar não é um processo de aprender, mas de desaprender.
Desaprender a culpa.
O medo.
A falta de intimidade comigo mesma.
O impulso constante de agradar para ser amada — ou para não ser rejeitada.
No fundo, é um processo de limpeza. Algo que vai revelando um valor que sempre esteve aqui. Eu não precisei aprender a me valorizar. Precisei apenas enxergar.
Hoje, sinto-me como uma casa.
Sabes aquelas pessoas que acumulam coisas? Que já não sabem onde termina a cozinha e começam os quartos? Assim era a minha casa interna: cheia, confusa, pesada.
O processo tem feito algo curioso comigo. Como se vários trabalhadores tivessem sido enviados para dentro de mim. Eles ajudam a identificar a raiz do medo, da culpa, do apego ao que já não serve. E, com essa ajuda, fui limpando a casa. Abandonando hábitos antigos. Abrindo espaço.
Aos poucos, comecei a perceber que a minha casa — bonita, cheirosa, organizada — sempre esteve aqui. Estava apenas coberta por coisas inúteis, que me deixavam cada vez mais cansada, mais estagnada.
Traí-me muitas vezes. Quantas coisas fiz contra a minha vontade apenas por medo de desagradar, de ser rejeitada.
Hoje, considero-me vitoriosa não porque não escorrego, mas porque aprendi a ouvir o meu corpo. E quando ele diz não, eu tento obedecer. Ainda escorrego, sim. Afinal, aprender a não me trair também leva tempo.
Sinto que estou a iniciar um novo ciclo. Um ciclo poderoso. Não sei explicar porquê, nem prever o que vem a seguir — mas reconheço essa força viva dentro de mim.
Sinto-me rica. Poderosa. Não no sentido material — embora, ironicamente, a única coisa que tenha em meu nome seja uma dívida.
(risos)
A minha verdadeira riqueza é outra: alegria de viver, vitalidade, força de vontade. E, principalmente, uma base interna capaz de sustentar tudo isso.
Só consegui enxergar esse lar depois de retirar o que pesava demais.
Hoje consigo ver a minha base. Dentro e fora de mim.
Depois de seis anos mergulhada numa grande confusão, ainda não vejo uma linha de chegada. Mas já não preciso dela. Tenho aprendido a desapegar da busca e a viver aqui, agora — confiando.
Com amor e alma,
Juliana Rosi

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