A sombra que queria provar o seu valor
O que é humildade? O que é ser humilde?
Será aquilo que a religião nos ensinou — que precisamos nos sacrificar, nos diminuir diante daquilo que consideramos maior do que nós?
Pergunto-me: por que estou escrevendo sobre humildade?
Eu nem sei exatamente o que é isso. Tão pouco sei o que é, de fato, ser uma pessoa humilde.
Será que ser humilde é ter a capacidade de permanecer disponível para aprender, seja com quem for?
Será que é conservar a curiosidade de uma criança que está apenas começando a sua jornada de experiências na vida?
Sinceramente, não sei.
Muitas vezes tento cultivar essa curiosidade, mas falho. Na maioria das vezes, meu ego quer provar que sabe mais. Quer provar o seu valor. E, nesse impulso, atropelo o que poderia ser uma conversa muito mais rica — uma conversa onde eu poderia aprender muito mais sobre mim e sobre o outro.
Depois me culpo.
Fico chateada comigo mesma.
Porque, no fundo, queria ser aquela pessoa ideal, perfeita, que faz tudo certo, no tempo certo.
Choro por achar que deveria ser melhor do que sou.
É pesado como um fardo interno… um fardo silencioso, quase imperceptível, mas que causa um grande estrago na minha vida.
É difícil lidar com isso.
Parece algo tão enraizado que, na maioria das vezes, nem percebo — mesmo estando presente no meu dia a dia.
É como se fosse parte de mim de tal forma que quase não consigo me distanciar o suficiente para observar com clareza.
Debato-me.
Quero mudar isso.
Mas parece mais forte do que eu.
Quando percebo, já me atropelei — e atropelei os outros também.
E lá vou eu me chicotear outra vez.
Respiro fundo e digo para mim mesma:
“De novo… estou sempre fazendo a mesma coisa.”
Percebo que isso acontece principalmente quando o assunto é algo que acredito dominar. Algo sobre o qual sinto que tenho algo a ensinar. Mesmo quando existe alguém que pode ter mais conhecimento do que eu, ainda assim sinto o impulso de provar que tenho valor — que eu sei, que não sou uma fraude.
Recentemente percebi isso com mais profundidade e clareza.
Por isso me pergunto novamente:
será que a humildade é simplesmente a capacidade de se colocar totalmente disponível para aprender, seja com quem for?
Mas que virtude difícil para o ego desenvolver…
Ainda assim, neste momento, não vejo isso com tristeza.
Na verdade, sinto até uma certa alegria.
Porque agora consigo enxergar — e enxergar é sempre o primeiro passo para qualquer mudança.
Hoje passei o dia inteiro a me debater com essa sombra.
Até que, no fim do dia, surgiu uma vontade de escrever. Era como se algo quisesse saltar de dentro de mim… subia do ventre até a garganta.
Então sentei-me.
Invoquei sabedoria, discernimento e a presença do espírito que habita em mim. Sabia que aquilo que estava prestes a surgir era valioso.
E agora vejo com clareza a resposta que passei o dia inteiro procurando.
Vejo com clareza esse movimento em mim: a necessidade de provar que sei, de mostrar o meu valor — e, nesse impulso, muitas vezes atropelo o outro.
Sim, eu faço isso.
E está tudo bem.
Constato: é uma característica minha.
Sorrio, aliviada.
Ah… admitir para nós mesmas a nossa sombra — reconhecê-la sem julgamento, sem repressão — é um alívio imenso para a alma.
Tratar aquelas partes nossas que não gostamos com rigor, com julgamento, só faz com que elas se escondam.
E então, quando menos esperamos, elas aparecem e nos surpreendem.
Mas quando olhamos para a nossa sombra com amor, algo dentro de nós se abre.
Criamos um espaço seguro para ela existir.
E então aquela parte, que lutava para se esconder, finalmente pode descansar.
Porque agora ela foi vista.
Isso, meus amigos, é integração, é consciência em tempo real.
E não digo isso com humildade.
Digo com orgulho de mim.
Reconheço o poder daquilo que pratico diariamente.
Reconheço o meu compromisso e a minha responsabilidade com o meu próprio crescimento — e isso é algo digno de ser celebrado.
Não vou me esconder atrás de uma falsa humildade.
Eu tenho poder sobre mim.
E reivindico esse poder todos os dias quando acordo.


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