Viver é desconfortável



Viver é desconfortável.

E passamos a vida tentando fugir disso.


Talvez seja por isso que a busca nunca cesse. Buscamos preencher algo, satisfazer algo que nunca termina — porque o desconforto da vida está sempre lá.


Até que um dia você percebe:

ele é normal.

E quando descobre isso, para de lutar.


Já reparou como é difícil ficar só?

Sem nada para fazer.

Sem distrações.


A gente corre para preencher qualquer vazio. Rolamos o celular, abrimos algo, inventamos tarefas. Mas já parou para pensar que talvez isso seja apenas fuga?


O ego não gosta de desconforto. Ele busca prazer, controle, o que é agradável. Ele teme o silêncio porque no silêncio não há distração — há encontro.


E talvez o desconforto não seja um inimigo.

Talvez seja um chamado.


Um convite para estar presente.

Para tocar o próprio corpo com intenção.

Para respirar sabendo que está respirando.


Entenda: meditar, praticar presença, viver com intenção — nada disso faz o desconforto desaparecer.


Mas traz consciência.

E consciência muda tudo.


Depois de anos meditando, estudando, buscando autoconhecimento, o desconforto ainda bate à minha porta. Quase todos os dias. Às vezes vem como tristeza. Outras como melancolia, tédio, frustração, raiva, medo.


E por vezes ainda me pego tentando fugir.

Mas agora eu vejo.


Antes, quando ele surgia, eu achava que havia algo errado comigo. Projetava no futuro a solução:

“quando isso acontecer… quando aquilo mudar… aí vou me sentir melhor.”


Mas nada muda o estado interno de forma permanente.

Então parei de buscar fora o que nunca esteve lá.


Descobrir isso me trouxe uma felicidade imensa:

o desconforto não vai desaparecer — e não há nada de errado comigo por causa disso.


Hoje, tiro o foco do externo e volto para aquilo que posso escolher: minha atenção.

Eu decido onde coloco minha energia.


Não me abandono mais tentando me encaixar.

Não me diminuo para caber.

Não negocio minha dignidade por validação.


Porque talvez o maior sofrimento não seja o desconforto da vida.

Seja o autoabandono.


Nos traímos para sermos aceitos.

Permitimos agressões sutis.

Vivemos esperando que alguém nos confirme valor.


E isso corrói.


Olho para esta geração — e para as anteriores — e vejo distração constante. Tudo voltado para fora. Isso me preocupa. Me faz perguntar: como ajudar?


Não porque eu seja melhor.


Mas porque já fiz esse caminho para dentro. Sei o que é atravessar resistência, dor acumulada, raiva antiga. Sei o que é encarar a própria sombra e não fugir.


É um caminho denso.

Demorado.

Profundamente transformador.


Hoje sinto que saí do nevoeiro. Não porque não haja mais desconforto, mas porque há mais luz.


Eu sou presença.

Sou consciência.

Sou a testemunha.


Mas doeu me desidentificar do teatro da mente — esse teatro que eu acreditei ser eu por tantos anos.


Como cheguei aqui?


Com determinação.

Com compromisso inabalável comigo mesma.


Eu tatuei esse compromisso na pele — mas ele já estava gravado muito antes, no coração.

Eu não escrevo isso porque já cheguei a algum lugar definitivo.


Escrevo porque ainda sinto.

Porque ainda atravesso.

Porque ainda escolho ficar.


Não tenho todas as respostas. Mas tenho uma decisão: não me abandonar mais.


Se você também sente esse desconforto que parece não ter fim… talvez ele não seja um erro. Talvez seja um chamado.


E se for, que a gente tenha coragem de escutar.


Ficar.

Respirar.


E voltar para casa — dentro.


Com amor e alma,

Juliana Rosi

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