Já chega
Há dias em que o corpo começa a dizer não antes da mente entender o porquê.
Hoje é um desses dias.
Sinto em mim uma força que quer se libertar.
Um peso que precisa ser deixado para trás — embora eu ainda não consiga nomeá-lo.
É como algo que se contorce dentro do peito.
Um aperto.
Uma pressão que às vezes sobe pela garganta, como se quisesse sair, gritar, nascer ou simplesmente ser liberada.
Pergunto-me o que é isso.
Não quero mais carregar pesos.
E, ao mesmo tempo, sinto medo dessa liberdade — medo de libertar seja lá o que for que queira sair.
Isso me gera raiva.
Raiva por não libertar.
Raiva que, por vezes, projeto nos outros.
Mas agora consigo ver com mais honestidade:
não liberto por medo do julgamento.
Medo de destoar da maioria.
Medo de sair da manada.
E então o ego acusa, culpa, se irrita.
Mas a raiz não é essa.
A raiz é o medo.
Medo do desconhecido.
Medo do que virá — mesmo sem saber o que virá.
Medo do que vão dizer de mim.
Medo das consequências que nem existem ainda, mas que a minha mente insiste em prever sempre como as piores.
Sinto que cheguei a um ponto em que já não aguento mais.
Às vezes parece que algo vai rebentar por dentro.
Intuo que existe um lugar de muita liberdade à minha espera.
Mas o caminho até lá é completamente desconhecido.
E isso assusta.
Assusta largar o que já joguei fora e ainda assim sentir que preciso largar mais.
Assusta seguir por um caminho que nem sei onde começa.
Talvez o começo seja justamente esse:
ir, sem saber para onde.
Em busca de algo que ainda não conheço.
Quero dizer não para aquilo que sei que não quero para mim.
Mas tenho medo de que aquilo que eu quero não venha.
Ou de que eu não seja capaz de sustentar o que sei que mereço.
Que crença é essa que me impede de acreditar nos meus sonhos mais ousados?
Que crença me faz duvidar de que sou merecedora e capaz?
Existe dentro de mim um grito que quer sair.
Um grito que quer dizer não.
Que quer dizer chega.
Talvez seja isso que tantas vezes se transforma em tristeza profunda.
Talvez seja isso que adoece: engolir o próprio limite.
Por que insisto em tratar como fantasia aquilo que eu desejo com tanta verdade?
O que exatamente eu preciso soltar?
Do que preciso me desapegar?
Chega de carregar bagagens que não são minhas.
Que não me favorecem.
Que já não servem.
Mas para largar, preciso reconhecer o que carrego.
Que bagagem é essa que preciso pousar no chão e simplesmente abandonar?
O medo do desamparo se disfarça de muitas formas.
Mas ele está ali, no fundo de tudo.
Medo de não ser compreendida.
Medo de ser excluída por pensar diferente.
Medo de querer mais — e melhor — para mim.
É preciso coragem para dizer não ao que não quero
e sim ao que quero.
Coragem para enfrentar expectativas, padrões, sistemas familiares inteiros que aprenderam a se curvar e a chamar isso de vida.
Será que tenho essa coragem?
Será que vou sustentar aquilo em que acredito?
Será que vou me atirar no abismo?
Talvez a verdadeira coragem seja confiar que serei amparada.
E se não for… o que tenho a perder?
Viver uma vida que me encolhe, me entristece e me adoece?
Ou finalmente dizer não?
Já chega.
Hoje eu escolho não me trair.
Escrevi este texto a partir de um lugar de aperto, mas também de lucidez.
Não é uma conclusão, nem uma resposta pronta — é um registro honesto de um momento em que o corpo começou a dizer não antes da mente conseguir acompanhar.
Partilho porque sei que este tipo de conflito raramente é falado com verdade.
E porque escrever, para mim, é uma forma de não me abandonar.
Se este texto tocar algo em ti, fica com isso.
Às vezes, o primeiro passo da liberdade é apenas reconhecer o aperto.
Com amor e alma,
Juliana Rosi


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