A Armadilha da Fragmentação
Eu não escrevi isso para convencer ninguém.
Escrevi porque, depois que a integração começa, o silêncio já não cabe.
Não sei quando comecei a me fragmentar.
Não me lembro.
Só sei quando descobri que estava fragmentada.
Falando assim parece estranho… o que é isso de estar fragmentada?
A gente só sabe quando toma consciência.
E quando finalmente prova a sensação de estar inteira, entende — no corpo — o que foi viver dividida.
Tudo foi sendo compartimentado. Separado.
Separaram filhos de mães com a desculpa de que precisam ser educados.
Separaram o corpo — cada médico cuida de uma parte, ou finge que cuida.
Separaram Deus de nós. Disseram que Ele está fora, num trono, julgando pecados.
E assim separaram luz de sombra, como se isso fosse possível.
Como pode existir luz sem sombra?
Como pode haver sombra sem luz?
Uma depende da outra para existir.
Separaram feminino de masculino.
Deus de Diabo.
Bem de mal.
Separaram-nos da natureza — talvez esse tenha sido o golpe mais baixo.
Separaram vida material de vida espiritual, como se para ter uma fosse preciso abandonar a outra.
Mentiram para nós.
E fomos, aos poucos, nos fragmentando.
Começamos a buscar fora as partes que faltavam. A tentar preencher o vazio.
E então passaram a nos vender ideias, produtos, caminhos “salvadores”.
Uma armadilha sutil. Quase imperceptível.
Como o sapo na panela de água fria, que aquece devagar até que já não haja saída.
Quando percebemos, a mentira já estava dentro.
Passamos a defendê-la. Com unhas e dentes.
E quem não segue a mentira é lançado à margem.
“Vagabundo.”
“Sem juízo.”
É preciso coragem para se atirar no abismo da própria loucura.
Só assim começa o despertar.
Quando você enxerga a falha na matrix, não há como desver.
Você quer ver mais.
E quanto mais vê, mais dói.
Mas a consciência já não permite o retorno à ignorância.
É aqui que muitos mergulham no ódio.
Ódio do sistema.
Ódio da sociedade.
Ódio de quem ainda não vê.
Essa é a bifurcação.
Se você cai no ódio, continua alimentando a armadilha.
Porque não se desmonta uma armadilha de fora para dentro.
É preciso sustentar a luz.
É preciso discernimento.
É preciso admitir que existe algo maior — e que não sabemos quase nada sobre isso.
O foco precisa voltar para dentro.
Fora é ruído.
Dentro é integração.
É o caminho de recolher as partes fragmentadas.
Partes que nem sabíamos que existiam.
E partes que carregávamos sem que fossem nossas.
Coragem.
Muita coragem.
Enxergar a mentira dói.
Mas depois que se vê, não há volta.
A armadilha nos ensinou a odiar o que é humano.
Nosso ritmo.
Nosso descanso.
Nossa sombra.
Nossa natureza primordial.
O retorno é aceitar tudo isso.
Amar o que nos ensinaram a rejeitar.
Dizer não ao que nos envenenou.
E atravessar as tempestades internas.
Algumas parecem nos afogar.
Outras nos lançam contra as pedras quando achamos que já estamos perto da praia.
Mas é nesse caminho que algo muda.
Chega um momento em que entendemos:
não há mapa.
Não há controle.
Há apenas o próximo passo possível.
Quando soltamos o apego ao controle, percebemos que o sofrimento vinha justamente da tentativa de prever, planejar, garantir.
O medo é o combustível da armadilha.
Quanto mais medo, mais manipulação.
Quanto mais desespero, mais submissão.
Prometem soluções para tudo.
Suprem necessidades.
Mas cobram energia vital.
E nos distraem do essencial:
o poder nunca esteve fora.
Ele sempre esteve aqui.
Debaixo do nosso nariz.
Quando aprendemos a navegar o próprio oceano interno, a tal “velocidade de cruzeiro” aparece: paz, amor, felicidade.
Mas não como algo separado.
Amor é paz.
Paz é felicidade.
Nada está dividido.
Isso é amor próprio.
É integração.
Esse tesouro sempre foi nosso.
Nascemos herdeiros.
No caminho, recebemos direções erradas.
Mas olhando para trás, vejo que nada esteve fora do lugar.
Não porque precisava doer.
Mas porque aconteceu comigo.
E me trouxe de volta.
Hoje não há nada a perdoar.
Meu campo está limpo.
Não devo nada a ninguém.
E ninguém me deve nada.


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