Viver sem me trair
O corpo começa antes.
Antes da decisão, antes das palavras, antes da coragem.
Muito antes de eu dizer “vou”, o meu corpo já estava em movimento.
Era um cheiro que vinha do nada.
Um som na rua que me levava para outro lugar.
Uma sensação no ar — difícil de explicar, impossível de ignorar.
No início, acontecia de vez em quando.
Depois, com mais frequência.
Até que passou a ser diário.
Não era saudade.
Era reconhecimento.
O corpo tem uma inteligência própria. Ele percebe quando algo já não cabe, mesmo quando a mente ainda insiste em aguentar. Ele começa a preparar a travessia enquanto a cabeça negocia permanências.
Durante muito tempo, tentei me encaixar.
Num sistema que exige horas demais, entrega pouco demais e chama sobrevivência de normalidade.
Trabalhar nove horas por dia para, no fim do mês, não conseguir pagar uma casa não é vida — é esgotamento institucionalizado.
E o corpo sente.
Sente o desalinhamento, sente a violência sutil, sente a contradição diária entre aquilo que somos e aquilo que somos obrigados a viver.
As consequências não vêm de uma vez.
Vêm aos poucos:
– cansaço que não passa
– desânimo sem causa aparente
– sensação de estar sempre “fora do lugar”
– um aperto silencioso que nenhuma distração resolve
Até que um dia algo dentro diz: chega.
Não é rebeldia.
É instinto de preservação.
Chega de tentar caber num modelo que nunca foi feito para todos.
Chega de chamar adaptação ao que, na verdade, é autoabandono.
O que eu procuro não é um trabalho que me realize no sentido grandioso da palavra.
Procuro um modo de viver que me mantenha saudável e inteira.
Um trabalho em que o dinheiro venha como consequência, não como motor.
Algo que me eleve, que faça bem ao que me cerca, que não agrida a terra nem me separe da vida.
Quero um trabalho que respeite o descanso.
Que, mesmo quando canse o corpo, alimente a alma.
Que não me peça para me trair todos os dias em troca de sobrevivência.
Talvez isso pareça idealismo para alguns.
Para mim, é critério de saúde.
Nem todo mundo sente assim — e está tudo bem.
Mas há pessoas que adoecem quando vivem desalinhadas de seus valores mais profundos.
Pessoas que não foram feitas para funcionar no automático, para competir sem sentido, para consumir a própria energia vital até secar.
O corpo dessas pessoas avisa.
Sempre avisa.
O meu avisou durante um ano inteiro, em pequenas doses, até que eu estivesse pronta para ouvir. Agora, ele já não sussurra. Ele sabe que a decisão foi tomada.
Não sei ainda todos os contornos do que vem.
Mas sei exatamente o que não aceito mais.
E isso basta para começar.
Às vezes, a mudança não começa com um plano.
Começa com o corpo dizendo:
por aqui, não.
Com amor e alma,
Juliana Rosi


Comentários
Enviar um comentário