O lugar onde posso repousar



Cresci numa família disfuncional e, durante muito tempo, carreguei bagagens que não eram minhas.


Mesmo assim, eu sempre soube: a conta não fechava.

Havia algo profundamente desalinhado em tudo aquilo que vivemos.


Afastei-me dessas raízes para tentar me encontrar noutros mundos.


Mundos desconhecidos e, ao mesmo tempo, tão familiares que chegavam a arrepiar.


Viver outras realidades ajuda-nos a conhecer quem somos.

No meu caso, foi um longo processo de tentar encaixar-me em modos de vida que não eram compatíveis comigo — algo que só hoje consigo ver com clareza.


Esse caminho é como o do garimpeiro.


Recolhe-se terra e lama.

Lava-se tudo nas águas do rio.

Até que reste apenas o essencial.


Ouro.


O meu ouro foi reconhecer o meu valor.

Reconhecer que mereço a minha própria compaixão.

A minha empatia.


Insistir em encaixar-me numa realidade que não é a minha causou-me muito sofrimento.

Mas chega um momento em que precisamos tentar diferente.


Chega de forçar portas para as quais não temos as chaves.


Senti que os meus contratos aqui foram concluídos.

É hora de voltar às raízes.


E não volto de mãos vazias.

Levo comigo a riqueza de tudo o que vivi, tudo o que aprendi sobre mim e sobre o universo.


Durante anos senti-me desconectada do mundo e da família.

Como se não pertencesse a lugar algum.


Como alguém numa terra estrangeira, apenas a tentar sobreviver.


Mas nesta virada de ciclos, encontrei novamente o meu solo.


Voltei-me para as minhas verdadeiras raízes — e elas sustentaram-me.


Compreendi que pertenço, sim.


Tenho o meu clã.

Tenho a minha tribo.


E pouco importa se pensamos diferente ou vivemos de formas distintas.

Não importam crenças ou dogmas.


Importa saber que ali posso contar.

E repousar.



Com amor e alma,
Juliana Rosi

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