Hoje, isso basta
Hoje o corpo e a mente pedem silêncio.
Não como fuga, mas como limite.
Há coisas que já não pedem mudança —
pedem apenas que eu as veja.
Hoje, isso basta.
Tenho percebido que entrei numa fase da vida em que não procuro mais curar certas coisas em mim.
Não porque estejam resolvidas, mas porque já foram vistas.
E isso, hoje, basta.
Durante muito tempo achei que autoconhecimento era um caminho de correção:
entender origens, curar feridas, transformar padrões, tornar-me alguém melhor.
Hoje não.
Hoje, saber por que sou do jeito que sou já me traz paz.
Ver.
Admitir.
Reconhecer sem romantizar.
Há dias em que não me apetece cuidar.
Nem do cachorro.
Nem das crianças.
Nem de ninguém.
E isso não me faz menos amorosa.
Faz-me honesta.
Ajudar sempre foi um lugar seguro para mim.
Ali eu sustento, resolvo, mantenho tudo em ordem.
Precisar, nunca foi.
Depender incomoda.
Pedir ajuda expõe.
Há algo em precisar do outro que ainda toca numa sensação antiga de perda de valor.
Como se, ao precisar, eu ocupasse um lugar menor.
Hoje eu vejo isso sem drama.
Peço ajuda só quando não há saída.
Não gosto de incomodar.
Não gosto da sensação de ser um peso.
Prefiro ser eu a ajudar do que ser ajudada — mesmo quando estou cansada.
Isso não é defeito.
Foi estratégia.
Foi sobrevivência.
Talvez seja por isso que, às vezes, eu prefira que não precisem de mim.
Não por falta de amor, mas por exaustão.
Carregar tudo cansa.
Há dias em que eu não quero cuidar de ninguém —
e ainda assim, amo profundamente.
Hoje não quero mais curar essa estrutura.
Quero apenas saber que ela existe.
Quero viver com consciência, não com culpa.
Autoconhecimento, para mim, deixou de ser um projeto de melhoria pessoal.
Virou um lugar de repouso.
Um espaço onde eu digo: é isto.
Não preciso deixar de ser quem sou.
Só não quero mais mentir para mim sobre isso.
E, curiosamente, é aí que algo se aquieta.
Sem promessa.
Sem fantasia.
Hoje, isso basta.
Com amor e alma,
Juliana Rosi





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