Entre explicar e existir



Acordei sem saber dizer como estava.

Não era tristeza, nem alegria. Era uma sensação estranha de déjà-vu — como se eu já tivesse estado exatamente aqui antes. Neste mesmo ponto. Nesta mesma encruzilhada.


Às vezes, essa sensação parecia puxar-me para trás, para um lugar conhecido.

Outras vezes, curiosamente, parecia empurrar-me para a frente. Como se uma parte de mim já estivesse no destino.

Como se eu já estivesse lá — no Brasil, na minha terra, em mim.


E então algo ficou claro, quase sem esforço:

eu passo a vida a tentar me explicar para os outros.


Explico decisões.

Explico sentimentos.

Explico silêncios.

Explico mudanças.


Como se, se eu não me explicasse direito, não fosse amada.

Como se existir, do meu jeito, precisasse sempre de legenda.


Perceber isso não veio com drama. Veio com cansaço.

E o cansaço, quando é honesto, costuma ser sábio.


A pergunta surgiu sozinha:

por que estou a tentar me traduzir para pessoas que não querem realmente saber?


E então, em voz alta — porque o corpo também precisa ouvir — eu disse:

eu não tenho de ficar tentando me explicar para quem não quer saber.


Chega.


Quem quiser entender, pergunta.

Quem quiser saber, aproxima-se.

Quem se importa, escuta.


Explicar-se o tempo todo é uma forma sutil de pedir permissão para ser.

E eu já não quero viver assim.


Claro que o medo ainda existe.

O medo de não ser aceita.

De ser julgada.

De ser mal interpretada.


Mas hoje eu vejo esse medo com mais maturidade. Ele não manda mais.

Ele apenas acompanha a travessia.


Porque há algo mais forte a nascer:

a paz de estar alinhada comigo.


Essa paz não vem de certezas absolutas.

Vem de pequenas atitudes coerentes.

De escolhas repetidas.

De silêncios sustentados.

De não voltar atrás só para agradar.


Eu sei que é uma questão de tempo.

E de prática.

E de confiar que viver em verdade reorganiza tudo à volta — mesmo quando, no início, causa algum desconforto.


Talvez algumas pessoas não gostem desta versão que já não se explica.

Mas talvez essas pessoas só gostassem da versão que se dobrava.


Hoje, a possibilidade que mais me entusiasma não é um plano grandioso.

É simples.

É profunda.

É silenciosa.


É estar em paz comigo.


E isso, finalmente, basta.


Com amor e alma,

Juliana Rosi

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