O peso que não era meu
Entre o medo de magoar e a liberdade de ser
Hoje descobri algo que desatou um nó dentro de mim —
um nó que pesava há muito tempo.
Um nó que se fazia mais presente nas minhas relações amorosas,
mas que, no fundo, estava em todas.
Estava a conversar com alguém por chamada de vídeo.
De repente, a ligação caiu — a pessoa do outro lado ficou sem internet por uns instantes.
Depois trocámos algumas mensagens… e veio o silêncio.
Então a mente começou:
“Será que essa pessoa quer continuar a falar?”
“Será que devo mandar outra mensagem?”
“Será que estou a ser intrusiva?”
Será, será, será.
Deixei o telefone na cama e fui até à janela tomar ar.
O peito apertado, o coração inquieto.
A ansiedade veio junto, com o medo antigo de ter feito algo errado.
Ali, no parapeito, percebi: tenho evitado relacionamentos
porque isso — essa sensação de peso — sempre volta.
Fiquei a sentir tudo, sem fugir: o aperto, a confusão, os cenários criados pela mente.
“Será que a pessoa vai ficar magoada se eu não disser mais nada?”
“Mas eu só quero ficar em silêncio agora…”
“Será que esse meu jeito vai afastar alguém?”
E então veio o pensamento:
não quero mais me envolver com ninguém, quero estar só.
Mas logo depois… a luz.
Percebi que me sentia responsável
pelo que o outro pudesse vir a sentir por causa das minhas atitudes.
Foi nesse instante que entendi:
eu não sou responsável pelas emoções dos outros.
Repeti essa frase várias vezes,
até sentir o nó se desfazer dentro do peito.
A leveza veio.
A tranquilidade também.
Caramba — esse nó sempre me acompanhou!
Em todas as relações, amorosas ou não.
Senti como se um fardo imenso tivesse saído de dentro de mim.
Voltei para o quarto, pus uma música e deixei-me estar.
Sem medo do que o outro possa pensar, porque afinal…
eu não estava a fazer nada de errado.
Estava apenas a ser eu mesma.
Antes, ser eu mesma parecia não ser permitido.
Eu precisava ajustar-me para que o outro ficasse confortável —
e o conforto dele custava a minha paz.
Hoje, sou grata por ter enxergado isso com tanta clareza.
Esse é o poder da auto-observação.
Há dores que não nos pertencem,
mas que, por amor, aprendemos a carregar.
Fazemos isso em silêncio, quase sem perceber,
acreditando que aliviar o outro é também uma forma de amar.
Mas o corpo sabe.
Ele guarda o que a alma já não quer.
E, um dia, quando já não consegue mais conter, ele grita.
O meu gritou.
Foi no meio de um dia qualquer, entre uma tarefa e outra,
que senti o corpo pesar como pedra.
Uma exaustão antiga, que parecia vir de muito antes de mim.
Como se eu estivesse a carregar séculos de cansaço —
não apenas o meu,
mas o de todas as mulheres que, antes de mim, se calaram, se dobraram, se sacrificaram.
De repente, percebi que já não conseguia continuar.
Sentei-me. Respirei.
E deixei que o que estava reprimido viesse —
o choro, o medo, a raiva, a vontade de desaparecer.
Tudo.
Mas, entre lágrimas, algo em mim sussurrou: “basta.”
Foi nesse instante que compreendi —
eu não precisava mais continuar a ser o lugar onde a dor se escondia.
A dor não era toda minha.
O peso não era todo meu.
E para me libertar, precisei soltar
o que vinha sendo sustentado por gerações.
Isso é transformação:
deixar cair o velho, o que não me pertence,
para que eu finalmente possa existir
sem culpa e sem medo de ocupar o meu lugar no mundo.
Autora: Juliana Rosi


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