O Caminho Que Só Eu Posso Trilhar
Um testemunho sobre abandonar doutrinas, ouvir o próprio ritmo e descobrir que o vazio se preenche com presença.
Tenho percebido que o caminho espiritual de cada pessoa é algo profundamente particular. Podemos ler e ouvir mil opiniões sobre como “destravar” isto ou aquilo. Podemos até colher um fruto aqui e outro ali, de tudo o que existe por aí. Mas, se não usamos o nosso filtro — a nossa voz interior — acabamos caindo na mesma armadilha da qual tentamos fugir: o doutrinamento. Aquela armadilha que nos diz o que fazer e nós seguimos sem questionar.
Não. Não temos de aceitar práticas ou “verdades” alheias como se fossem adequadas para nós, sem ao menos perguntar: isto ressoa comigo?
No meu próprio caminho, percebo que há muitas meias-verdades. E chego à conclusão de que preciso descobrir qual é a minha meia-verdade. A minha é feita de pequenas pinceladas das verdades dos outros — pinceladas que iluminam as pistas dentro de mim e me conduzem à minha verdade inteira. No fundo, esses ensinamentos servem como lanternas que acendem o que já existe em mim, à espera de ser encontrado.
É um caminho de entusiasmo, de altos e baixos, como tudo no universo. Mas a recompensa… ah, a recompensa. Não há como medir o que esta descoberta devolve.
Esse caminho ensina que tudo o que é verdadeiro se revela devagar, num ritmo que não se encaixa na pressa humana. E ao mesmo tempo, ensina-me a ajustar-me ao ritmo verdadeiro da natureza — da minha natureza.
Com o tempo, percebo que este ritmo sempre esteve ali, como algo que eu buscava sem saber que buscava.
Antes, eu vagava entre situações que a vida me trazia e usava os padrões da sociedade como bússola. E isso só me fazia sentir cada vez menos suficiente. Então eu buscava mais. A busca eterna, que nunca preenche o vazio.
Hoje caio cada vez menos nessa armadilha. Estou a aprender que o vazio só se preenche com a minha presença. E a minha presença… eu já a tenho.
Tudo o que eu quero é ser vista. Acolhida. Amada. Sem julgamentos. Quero apenas existir.
Tenho aprendido a aceitar a minha mente como ela é, com todas as suas loucuras. E cada dia eu a amo mais. Dessa loucura nasce criatividade, nasce humor, nascem conversas internas que me fazem rir sozinha.
Entendo que devo deixar a minha mente em paz. Parar de reprimir pensamentos. São apenas pensamentos, nada mais. Quando os deixo em paz, eu fico em paz.
Por isso digo: não se apeguem às ideias dos outros. Usem-nas apenas para lapidar o que já existe dentro de vocês.
O meu caminho é meu — único e intransmissível. As minhas palavras servem apenas como pequenas migalhas para quem também busca a verdade, para quem já percebeu que nada externo consegue saciar a fome da alma.
A minha alma sempre me chamou de volta, mas eu estava tão ocupada em tentar agradar, ser aceita, ser elogiada, que não percebia que aquele chamado era para olhar, não para conquistar.
Quando finalmente olhei, doeu. Doeu tanto que eu quis fechar os olhos de novo. Mas já não havia como “desver”. A porta tinha-se aberto.
Hoje percebo que a minha alma — ou o meu eu superior, chame como quiser — sempre esteve ali, dizendo: eu estou aqui; confia. E dizia isso através dos meus sonhos. Ainda diz. Em cada oração, muitas vezes a resposta aparece logo à frente, disfarçada de sincronicidade.
Também aceito cada vez mais que continuo a ser eu. Continuo a sentir raiva, tristeza, ansiedade, medo. A diferença é que agora eu vejo: “Ah, olha o medo.”
Observo. Sinto. Deixo ser. Não tento expulsar. Porque reprimir só me causa mais sofrimento.
Aprendo que cada alegria tem o seu oposto, e saber isso muda tudo. Quando a tristeza chega, sei que é o universo a equilibrar-se. Então deixo que ela me atravesse. Às vezes passo o dia com ela, e nesses dias cuido-me melhor, recolho-me, dou-me descanso.
E, muitas vezes, ela revela coisas maravilhosas sobre mim.
As emoções densas carregam ensinamentos. Quando tento reprimi-las ou distrair-me para não sentir, abandono-me. E o abandono gera dor, gera ansiedade, intensifica a busca externa. Mas as emoções não vão embora — batem cada vez mais forte, pedindo que eu olhe.
Percebo então que nada existe para me ferir. Tudo existe para me mostrar algo.
E dessa descoberta nasce o que considero o verdadeiro amor: a aceitação.
Junto com ela, nasce o discernimento — aquele que me permite ser firme com pensamentos que não quero alimentar. E a minha mente obedece. Talvez porque confie em mim. Ainda não sei. Mas sei que quando algo não me faz bem, eu digo: Não. Não quero isto.
Tenho percebido também que, no fundo, não posso afirmar que sei de coisa alguma. Eu observo, sinto, aceito. Mas saber… saber não sei. Tudo é transitório. Nada é estaca fincada.
É um abismo gigantesco, no qual já não tenho medo de me lançar. O abismo abraça-me quando salto sem medo. É escuro e vazio, mas ao mesmo tempo cheio de vida.
Eu sinto essa vida. Não sei explicar. É como estar envolvida em algo primordial, como se fosse o útero da minha mãe — embora eu não lembre dessa sensação, é a única comparação que consigo fazer. É como se eu me integrasse com o abismo. Como se eu fosse o próprio abismo.
Talvez seja loucura.
Mas é uma loucura boa demais para eu abrir mão.
Autoria: Juliana Rosi


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