Atravessar-me
Quando o amor-próprio deixa de ser um conceito e se torna gesto.
Ontem, antes de dormir, fui tomada por uma tristeza profunda.
Olhei para a minha vida material e senti um vazio a apertar o peito. Não tenho casa, carro, carreira, dinheiro. Vivo de favor, a trabalhar em part-time porque o corpo e a mente, depois do diagnóstico de bipolaridade, já não aguentam o ritmo que o mundo exige.
Chorei.
Chorei por me sentir inadequada, por não me encaixar em nada, por achar que não pertenço a este mundo.
Um amigo ligou-me, distraí-me por alguns minutos e depois adormeci.
E então sonhei.
Estava com esse amigo, o meu ex-namorado e a filha dele numa espécie de festa ao ar livre. Havia comida, crianças, barulho de gente. Aos poucos, todos começaram a desaparecer. Fiquei sozinha com a menina — e depois, com pessoas da minha família paterna, que já não via há anos.
De repente, encontrei uma tia a quem fui muito próxima e de quem me afastei há muito tempo. Abracei-a e chorei.
Chorei tanto que, quando me larguei do abraço, todos os outros já tinham ido embora. Ficamos só nós duas.
Seguimos juntas por um caminho que nos levou a uma floresta.
Era uma floresta estranha — verde e viva, mas cheia de árvores podres, musgo e umidade.
No fim do caminho havia um barco velho, naufragado, e o mar bravo a bater nos restos de madeira.
Tentei atravessar aquele barco com ela, equilibrando-me entre as ondas, apoiando-me no seu braço.
E foi nesse instante que acordei.
Pus a mão no peito e perguntei o que o sonho queria dizer.
Senti de novo aquela tristeza de não pertencer, e compreendi:
a minha tia era uma parte de mim.
Aquela que eu deixei para trás por ser diferente, por não se adequar às regras do mundo.
E o sonho era o reencontro — o abraço entre quem eu fui e quem estou a lembrar-me de ser.
De manhã, depois da minha rotina, fui à aula de Pilates.
Senti o corpo libertar energia antiga, pesada.
Quando voltei, fui direto para o banho — coloquei uma música calma e transformei o banho num ritual consciente.
A água levava o que já não servia, mas com doçura.
Ao sair, senti vontade de pôr creme no corpo — algo que quase nunca faço.
Sentei-me na cama e comecei pelos pés.
De repente, lembrei-me de acender uma vela e um incenso, não para Ganesha, não para ninguém — mas para mim.
“Hoje, acendo esta vela em minha honra”, pensei.
Enquanto espalhava o creme, com calma, dizendo baixinho o quanto me amo e me aceito, as lágrimas começaram a escorrer.
Senti-me a pegar em mim mesma ao colo, a cuidar da Juliana que nunca recebeu esse cuidado.
E naquele instante, curei também a parte de mim que não se sentia merecedora de amor, de carinho, de atenção — justamente por se sentir diferente, por não se encaixar, por acreditar que não era suficiente.
Percebi que esse gesto simples — o de cuidar de mim — era, na verdade, um ato sagrado.
Um sim à minha própria existência.
Um “tu mereces” vindo de dentro.
Entendi então que este processo de cura é feito de camadas.
Mas não são camadas que se retiram.
São camadas que se amam.
Cada dor, cada parte de mim, quer apenas ser olhada e incluída.
Não é sobre livrar-me do que fui.
É sobre permitir que tudo o que sou tenha um lugar.
Hoje, acendi uma vela para mim —
e a chama que se acendeu foi a da minha própria alma.
Autora: Juliana Rosi


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