O Vazio que Me Tornou Inteira
Há momentos na vida em que nos perdemos de nós mesmas, sem perceber. Buscamos fora aquilo que sempre esteve dentro. Entre sombras, medos e relações, aprendemos que o vazio não é um inimigo — é um convite. Um convite para nos encontrarmos, inteiras, finalmente.
Perdendo-se de Si Mesma
Quando nos perdemos de nós mesmas, daquela parte fresca, genuína e leve, nem nos apercebemos disso, pois é algo que acontece gradativamente. Os acontecimentos e a falta de conhecimento e consciência de nós mesmas fazem com que a gente se perca no meio do caminho.
Aos poucos, sem perceber, fui querendo me encaixar no mundo de outras pessoas, desvalorizando a minha essência, pois, aos olhos alheios, parecia ingenuidade. E eu não queria, de forma alguma, ser uma pessoa ingênua. Eu queria ser admirada… queria ser vista como inteligente e culta. Queria saber usar bem as palavras… então fui atrás disso tudo e, aos poucos, fui abafando a minha "ingenuidade".
A minha fé na vida e naquilo em que sempre acreditei — que a vida me traz sempre aquilo que preciso, que não devo temer nada… que devo confiar que tudo ficará bem — foi sendo silenciada. Para a maioria das pessoas, isso é muito arriscado. Temos de ter um plano sempre… temos de ter o controle das nossas vidas nas nossas mãos.
Sempre me senti inadequada, pois nunca quis controle nenhum… eu só queria viver… receber de coração aberto o que a vida colocasse no meu caminho… ser grata por cada experiência.
A Confiança da Juventude
Quando ainda era jovem, por volta dos 15 a 17 anos, lembro-me que eu era uma menina bastante determinada e confiante… Não era confiante nas amizades nem nos relacionamentos com os rapazes, pois me achava feia e esquisita. Mas eu era confiante quando o assunto era eu conseguir o que queria: um trabalho, por exemplo… a realização de uma tarefa que me desafiasse. Nada me podia parar… e se não desse certo, eu simplesmente deixava para trás e ia em busca de outra oportunidade.
Eu era excelente em motivar os outros… simplesmente detestava quando as pessoas não confiavam nelas… quando achavam que não iam conseguir sem ao menos tentar… não conseguia entender como alguém podia pensar assim.
Mantive essa força durante muito tempo, mas alguns eventos bastante traumáticos me fizeram acreditar que a vida não era boa comigo. Mergulhei profundamente nas minhas sombras… no medo, na ansiedade, na vergonha, na culpa, nos sentimentos de fracasso, etc.
Durante um longo período, sofri muito com tudo isso… pois não entendia como tinha ido parar ali, naquela situação.
A Força nas Sombras
Hoje sei que o mergulho nas minhas sombras foi algo doloroso, sim, mas foi maravilhoso também, pois descobri que nas sombras reside uma força descomunal… eu tinha toda aquela positividade na mente e no coração, mas nunca tinha entrado em contato com esse meu lado sombrio, pois sempre procurei fugir dele… como o diabo foge da cruz. Mas a vida… ah, a vida… ela sabe muito bem o que faz.
O Vazio Interior
Agora finalmente entrei em contato com aquilo que penso ser a parte final desta jornada de mergulho nas sombras — aquele vazio que sempre tentei preencher. O conhecimento sobre isso já estava no meu intelecto, já curei muitos traumas e meditei muito. Fiz diversos cursos e terapias, mas foi no silêncio do meu quarto, quando decidi não fugir mais dessa sensação que me fazia incessantemente correr atrás de algo para suprir… fosse o que fosse.
Muitos anos achei que um relacionamento seria a solução… mas o vazio não desaparecia e eu achava sempre que era culpa do outro. Por vezes era mesmo, pois me metia em relações super tóxicas. Estava sedenta de tapar aquele buraco dentro de mim… aquele buraco existencial.
No silêncio do meu quarto, com uma música calma, decidi olhar para esse vazio novamente, como já havia feito noutras alturas, em busca de alívio… desta vez foi diferente. Eu percebi, de uma forma que não sei explicar, como se tivesse integrado tudo… percebi que esse vazio só se acalma com a minha presença.
Não sei o que aconteceu de diferente, pois já havia feito isso noutras vezes… gerava algum conforto, mas depois o vazio voltava e eu continuava a busca. Só que desta vez eu me senti completa… senti que a busca finalmente acabou. No momento em que entrei em contato com esse vazio, essa sensação de falta, tudo ficou iluminado para mim, tão claro como a luz do sol. Tão simples… tão suave… tão sereno…
Não houve arrepios na espinha, não ouvi vozes… não vi luzes a piscar… chegou de maneira tão serena, mas tão serena que é impossível descrever, de tão simples que é… só sei que a minha busca acabou. Não há mais nada que eu precise ir buscar. Eu sou aquilo que eu procurava… hahahah. Agora entendo quando o meu professor de Vedanta dizia que era como procurar uma caneta que estava na minha orelha. Andava à procura dela e ela estava mesmo em mim.
A Libertação das Relações
Acabaram-se as relações falhadas, pois eu iniciava tudo tão rápido apenas para preencher o meu vazio… sentir aquela paixão no início fazia-me sentir viva. Num determinado momento, percebi que, talvez, eu andava apenas à procura desta sensação maravilhosa de algo novo e apaixonante. Quando a toxicidade do outro e a minha começavam a vir ao de cima, tudo parecia um pesadelo… e aquele vazio permanecia ali. Eu procurava preenchê-lo fazendo cobranças ao outro… como se o comportamento dele fosse o responsável pelo meu vazio… ah, como eu estava enganada por mim mesma… e como é bom desenganar-me.
Renascendo das Cinzas
Sinto-me como uma verdadeira fênix que acabou de renascer das cinzas… com asas lindas e flamejantes… e estou pronta para voar novamente, com todo aquele frescor da juventude, mas agora com bases sólidas trazidas pela maturidade.
Meu coração bate cheio de vida… não me sinto feliz… sinto-me inteira… e isso é diferente da felicidade. A felicidade é passageira e instável. O que acabei de descobrir é estável… está enraizado de tal forma que não consigo explicar… nem quero explicar… não há necessidade.
Autora: Juliana Rosi


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