Aprender a Receber




Há momentos na vida em que algo simples desperta algo profundo.

Hoje foi assim.


Enviei uma mensagem ao meu ex — não por saudade, mas porque tinha esquecido algo lá. No entanto, logo depois, senti o coração apertar. Vieram lembranças, memórias, um misto de carinho e nostalgia. Então, em vez de fugir da sensação, deitei-me, pus uma música suave e decidi ouvir o que o meu coração tinha para me dizer.


Foi nesse silêncio que percebi algo importante:

na minha relação com ele, eu nunca soube receber.


Lembrei de quantas vezes ele fazia coisas por mim — esperava-me à porta do trabalho, só para irmos juntos pra casa, cuidava de pequenos detalhes — e, em vez de me sentir amada, eu me sentia… incomodada.

Surgia uma inquietação: “Por que ele está a fazer isso? O que virá depois?”

Ou um pensamento que doía: “Não quero ser um fardo.”


Muitas vezes, quando crescemos com a ideia de que precisamos nos proteger, ser fortes, não depender de ninguém, o ato de receber - amor, cuidado, gentileza - pode parecer ameaçador. Como se, ao aceitar, ficássemos vulneráveis ou devêssemos algo em troca.


E foi assim que vivi boa parte da relação — em alerta, tentando me proteger do que não existia, e sem perceber que o amor também se manifesta através do simples gesto de cuidar.


Hoje entendi que o que me incomodava não era o amor dele, mas a minha incapacidade de receber amor sem medo.

E essa consciência abriu um espaço de imensa gratidão.


Senti gratidão por ele, por tudo o que vivemos, por tudo o que aprendi sobre mim ao seu lado. E escrevi-lhe uma mensagem dizendo isso — sem expectativa, apenas com amor e verdade.


Ao enviar essa mensagem, algo dentro de mim se libertou.

Foi como um divórcio energético: não de afastamento, mas de libertação.

Como se a energia entre nós deixasse de estar presa ao passado e, finalmente, pudesse respirar.


O vínculo deixou de estar preso à culpa, à vigilância e ao medo, e passou a estar envolto em compreensão e paz.


Hoje, o sentimento continua — mas diferente.

Mais leve, mais silencioso, mais livre. É a transformação de uma memória dolorosa em sabedoria.


Percebo agora que aprender a receber é também aprender a confiar.

Confiar que o amor não exige nada em troca, que o cuidado não precisa ser pago, e que se permitir ser amada é, também, um ato de amor-próprio. 


Reflexão:

E tu, tens permitido que o amor chegue até ti — ou ainda sentes que precisas te proteger dele?



Autora: Juliana Rosi

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