A Verdade de Quem Está Cansada de Ser Forte
Hoje acordei com o peito pesado, como se a manhã tivesse chegado antes de mim.
Os pensamentos entraram primeiro: como vou sustentar a minha vida?
Como vou ter um lar só meu, se o meu corpo não aguenta o mundo no ritmo que o mundo pede?
E houve tristeza.
Tristeza funda, daquelas que descem até ao osso e lembram tudo o que ainda dói.
Tristeza de quem sente o caminho parado, como se a vida fosse um rio que deixou de correr.
Foi no meio dessa densidade que uma voz se levantou dentro de mim.
Baixa, quente, firme:
“Para de resistir.”
Não era pensamento.
Era coração.
Saí de casa e fui em direção à casa da minha mãe, como quem procura abrigo sem admitir que precisa.
No caminho, algo em mim abriu-se.
E eu vi.
Vi-me no centro de um campo de batalha.
O chão queimado, o ar denso, o silêncio antes de um impacto que nunca chega.
Eu estava lá — com uma armadura prateada a cobrir cada parte do meu corpo, tão pesada que já confundia proteção com prisão.
Na mão, uma espada enorme, símbolo de guerras que já duram mais do que a minha memória.
O cansaço não era físico.
Era uma rendição silenciosa que vinha de muito longe.
Então deixei tudo cair.
A armadura tombou com um som surdo.
A espada escorregou da minha mão como quem diz “acabou”.
Soltei o cavalo, como quem devolve a liberdade que nunca soube usar.
Fiquei ali, desarmada, vulnerável, respirando pela primeira vez sem o peso metálico que eu chamava de força.
Mas o universo tem esse hábito curioso:
no instante em que largamos as armas, ele encosta-nos ao limite.
É como se dissesse:
Se queres viver sem guerra, tens de confiar mesmo quando o vento muda.
E ele mudou.
Desafios vieram, sombras antigas acenaram, velhas dores levantaram a cabeça.
Senti-me novamente pequena, frágil, quase impotente.
Mas, no fundo, sei que não sou pequena.
Estou apenas cansada.
E o cansaço tem o poder de distorcer tudo.
A verdade é outra:
não é a vida que me bloqueia, sou eu que me esmago com batalhas que já não fazem sentido.
Talvez largar a armadura seja mesmo o início.
Talvez o corpo já saiba o que a mente esqueceu:
Que há um caminho que não se atravessa lutando — atravessa-se respirando.
E a frase que o meu coração me deu hoje,
como um sussurro que salva,
continua a ecoar dentro de mim:
Para de resistir.
Autora: Juliana Rosi

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