Libertar a fúria sem ferir



Às vezes é preciso deixar a sombra falar — para que a luz volte a brilhar.


Hoje aconteceu uma coisa nova.

Pela primeira vez, acho que não reprimi a minha raiva.


Ela veio como um rugido interno, feroz, claro, direto. E eu não a cortei. Não a disfarcei. Não a escondi sob um sorriso, nem a engoli com um gole seco de silêncio.

Pela primeira vez, mandei as vozes que me policiam — as que dizem “não pensa isso”, “não sente isso”, “não sejas assim” — todas para aquele lugar. Literalmente. E com gosto.


Mas tudo aconteceu aqui dentro.

Ninguém viu. Ninguém levou com isso.

Não houve grito, não houve drama. Só houve verdade.


Dentro de mim, deixei a raiva se levantar inteira.

Sem a tentar “corrigir”, sem tentar torná-la mais bonita, mais aceitável. Deixei-a falar com a voz rouca, sem filtro, com as palavras que sempre me ensinaram que uma “mulher espiritualizada” não deveria usar.

E, sinceramente? Foi maravilhoso.


Foi libertador perceber que eu posso deixar a minha sombra se expressar sem me tornar má, descontrolada ou menos eu.

A raiva não me fez perder o centro — ela foi o centro por uns minutos.

E, no fim, em vez de me destruir… ela me devolveu a mim.


Estou a descobrir que repressão não é o mesmo que equilíbrio.

Que a maturidade não está em apagar emoções, mas em conseguir senti-las sem as descarregar em ninguém.

E hoje, libertei a fúria sem ferir.

Nem a mim, nem a ninguém.


E foi aí que algo ainda mais inesperado aconteceu:

Logo depois da raiva, apareceu a alegria.


Como se, debaixo de uma cortina de poeira, a minha criança interior estivesse à minha espera.

Aquela parte bem-humorada, brincalhona, viva.

Ela saiu do esconderijo com um brilho nos olhos, como quem diz:

“Finalmente, alguém me defendeu.”


Senti-me feliz. Verdadeiramente feliz.

Como se ao acolher a minha sombra, eu tivesse resgatado também a minha luz.

Porque a raiva, quando reconhecida, não nos apaga. Ela limpa espaço.

Ela varre o chão da alma e revela o que estava lá o tempo todo:

a nossa alegria esquecida.


Hoje, libertei a fúria.

E encontrei, no meio dela, a minha própria liberdade.


Dentro de mim, talvez sempre tenha existido uma velha cabana esquecida.

De madeira podre, caindo aos pedaços, coberta de silêncio e abandono.

Mas lá dentro... havia uma luz.

Um tesouro dourado, brilhando. Esperando.

E hoje, ao libertar a minha fúria, eu entrei nessa cabana.

E encontrei o que estava perdido:

a mim mesma.


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